Panturrilha
A obsessão por esta parte do corpo
“Se a batata fica na perna, por que a horta fica no pescoço?”. MOCÓ, Didi. Os Trapalhões. 1991.
O trocadilho anatômico de Renato Aragão, associando a principal artéria do corpo humano aos músculos dos membros inferiores, voltou à memória nestes tempos de Copa do Mundo. Veio sem querer e quem despertou foi o garoto propaganda com o maior número de haters da publicidade nacional. Sim, o eterno menino. O Peter Pan da CBF. O parça dos seus pariceiros. Neymar.
A contusão que ele levou na bagagem para este mundial foi bem lá na dita cuja. Essa tal de panturrilha. Na época que eu assistia Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, a parte de trás da canela era chamada batata da perna. Tem quem diga que aquele pedaço da perna é, na verdade, a barriga da perna e, dependendo da localidade do país, pode atender por outras alcunhas que não sei denominar.
Na academia, aquela que produz conhecimento, intelectuais e o dito ensino superior, essa região do corpo é denominada como tríceps sural. Na academia, aquela das selfies no espelho e trilha sonora não recomendada, eu não sei como chamam. Deve ser panturrilha mesmo ou esse tríceps com sobrenome. Quase tudo alí não tem um nome não usual. Bunda é glúteo, por exemplo.
Pergunte para qualquer novato nesses recintos se ele entendeu alguma coisa da lista de exercícios que lhe foi recomendado para praticar nas máquinas, cordas e pesos espalhados pelo salão. Extensora, abdutora, rosca frontal, agachamento búlgaro, supino reto, prancha isométrica, core, peck, deck, levantamento terra, elevação pélvica. É outro língua.
A região acima dos calcanhares tem seus fãs e defensores fervorosos. Conheço duas unidades. Colega de mesa de bar confessou, certa feita, que estava apaixonado por uma bailarina. Quando a viu pela primeira vez, ela estava de costas. O coração bateu mais acelerado quando viu o torneamento logo abaixo dos joelhos, adornado por uma tatuagem de sapatilhas cruzadas. “Uma panturrilha daquela é privilégio de quem rodopia nas pontas dos pés”, me garantiu.
Uma amada amiga amante entrou com tudo na igreja do pace. Santo Strava de todas as manhãs. Domingo, antes do sol nascer, óculos escuros estilo robocop na cara, cadarços amarrados, número no peito e lá está ela, quilômetros depois, comemorando mais uma medalha comprada depois de pagar para correr pelas vias públicas.
Além de integrante da seita da corrida de rua, ela também tem suas taras pela parte de trás da perna alheia. Segundo ela, batatas da perna bonitas a estimulam a alcançar a linha de chegada mais rápido. A estratégia consiste em mirar uma perna, daquelas que chamam a atenção, e correr atrás até alcançá-la. A ação é repetida até terminar os 10km em quase uma hora.
Esse estratégico pedaço do corpo humano me intriga mais hoje do que quando tinha sete anos e, aos domingos, assistia Os Trapalhões antes de começar o Fantástico. Tenho andado na rua olhando para baixo, tentando ver além. Vejo pernas cabeludas, panturrilhas lisas, batatas da perna torneadas. Estou assistindo balé, admirando corredores na calçada e pensando em entrar em academias.
E o livro?
O primeiro semestre do ano está se despedindo. Também me despedi do primeiro capítulo do romance e nunca mais voltei. Fui comprar cigarro.
Os contos do Carnaval de Olinda emperraram na subida da Ladeira da Misericórdia. Parece que tem outro bloco descendo e agora está nesse rami-rami que não vai nem pra frente nem para trás. Uma hora se desenrola, como tudo na folia da Cidade Alta. Paciência no passo.
Porém, tem quatro títulos publicados por mim que podem ser comprados por você. Basta fazer o pix para livrosdegil@gmail.com. Cinquenta reais cada peça.
Espalhem a palavra.



